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A Formação (d)e um Benfica Europeu

por MonstroDasCuecasRotas, em 25.06.15

         

Ver o Benfica ser campeão deixa-me imensamente feliz, com um sorriso parvo que passeio pela rua nos dias seguintes, massaja-me o ego, envaidece-me, mas... não me realiza totalmente. Não faço parte do grupo de adeptos que parece perder a ambição e o sentido crítico se o título estiver nas nossas mãos. Não consigo dizer que ninguém faz falta só porque somos campeões nacionais, ou porque fizemos a dobradinha, ou o triplete. Como se tivéssemos concretizado tudo aquilo que o potencial do Benfica poderia permitir, como se nada restasse para ganhar. Não encerro aí o potencial ganhador do Benfica. Não empequeneço o Benfica a esse ponto.

         

O primeiro Benfica que conheci, aquele que fez de mim benfiquista, que fascinava mais do que qualquer outro, era uma potência europeia. Uma verdadeira equipa de topo europeu, de Meias-Finais e Finais de Liga dos Campeões. Uma potência europeia na verdadeira acepção da palavra, na história passada, mas também na recente, no estádio, na qualidade da equipa, na mística, na alma, na cultura e identidade do clube. Esse Benfica, por razões várias, foi-se desvanecendo com os anos. Felizmente e pouco a pouco, tem recuperado muito do que foi perdendo, mas acaba sempre a pairar no ar um certo derrotismo antecipado relativamente a outros voos, algo que me incomoda bastante. O destino parece ter-se cumprido, batemos no tecto dos sonhos.

         

O Futebol mudou bastante desde a Lei Bosman, todos sabemos, prejudicando sobretudo os clubes de futebóis periféricos, como o nosso. Quer isto dizer que o Benfica jamais poderá jogar o mesmo jogo que os outros grandes europeus que têm a sorte de fazer parte de ligas de topo? Sim, quer. Quer dizer, então, que o Benfica jamais poderá recuperar o seu histórico estatuto europeu? Não, não quer. Qual será então o segredo para dar a volta ao estado de coisas actual, para nos reinventarmos?

         

 O segredo será precisamente o de não jogar o mesmo jogo que esses clubes, ser criativo, inverter a estratégia. A criatividade aqui necessária não reside em encontrar outras soluções, reside no absoluto comprometimento com que se deve colocar em andamento a única solução possível: a Formação. À qual junto os valores nacionais em geral, que nasceram a aprender o significado e a importância do Benfica, em inúmeros casos tão benfiquistas como nós, desde tenra idade. Noutros, cedendo ao benfiquismo já em idade adulta, como Carlos Manuel ou Simão, mas sendo parte integrante da consciência colectiva portuguesa, desde que nasceram.

         

Antes de mais, para que não me interpretem mal e porque nenhuma mensagem sobreviverá ao preconceito se não o disser, devo deixar bem claro que quero, como sempre quis, qualidade no Benfica, venha ela de onde vier. Não quero que deixemos de apostar nos Gaitan's, Salvio's, Samaris's, Jonas's ou Júlio César's, não deve estar aí a janela de oportunidade dos jovens da casa, deve estar sim no lugar de outros jogadores de qualidade mais duvidosa, que continuam a chegar todos os anos em quantidades inaceitáveis.

         

Falar de formação é, hoje em dia, cada vez mais complicado. Pelo preconceito e pelas frases feitas, cujo sentido real é diminuto. Existe uma espécie de lei universal do futebol, que inexoravelmente determina não se poder ganhar apostando na formação. Afinal de contas, repete-se, o clube português que nas últimas décadas mais tem apostado nos jogadores da casa não tem conquistado grande coisa. Diz-se uma vez, duas, dez, e, quando damos por ela, nem o questionamos. Criamos automaticamente um quadro mental a que recorremos sem pensar: Formação = Perder. Como se o Sporting tivesse ganho apenas 2 campeonatos nos últimos 33 anos porque foi apostando nos Figo's, Ronaldo's, Quaresma's, Moutinho's, Viana's ou William's. Terá sido realmente esse o problema do Sporting? Não terá sido a falta de qualidade, sobretudo de quem vinha de fora, que acabou por obrigar o clube à aposta excessiva em jogadores da casa, mesmo quando não tinham qualidade para tais andanças? Como se a pior classificação da história do clube não tivesse ocorrido num dos períodos em que mais se gastou dinheiro para trazer jogadores estrangeiros “feitos”. Criou-se o mito de que a culpa é da formação, quando, em todos estes anos, foi o último dos problemas do Sporting. Foi, antes, inúmeras vezes a única solução para compensar de algum modo a falta de qualidade generalizada dos plantéis.

         

É bom lembrar que o futebol português venceu quatro Taças/Ligas dos Campeões e que nesses quatro triunfos predominavam jogadores da casa/nacionais. Eram equipas que incoporavam na perfeição a cultura do clube que representavam. Tudo aquilo tinha um significado que os jogadores vindos de fora não poderiam conhecer e/ou respeitar na sua total dimensão. O último Benfica europeu, o de 88 e 90, mesmo não ganhando, repousou no mesmo princípio.

         

Depois temos o exemplo moderno supremo que prova definitivamente aquilo que uma aposta sustentada na formação pode fazer por um clube. O Barcelona. De todos os gigantes europeus é aquele que mais aposta na formação e é tão só o clube mais vitorioso do século XXI. O mito de que "ninguém ganha nada a apostar na formação" ganha toda uma nova dimensão de ridículo quando pensamos no Barça. É escandaloso o número de jogadores da casa com os quais os catalães acabaram a vencer múltiplas vezes a prova máxima de clubes do futebol mundial, os quais custaram valores irrisórios ao clube, comparativamente aos respectivos titulares dos seus rivais directos.

         

E é chegando aqui que cada palavra deve ser usada com todo o cuidado, os diversos preconceitos já fazem fila para ridicularizar tudo isto. Como é óbvio, jamais poderemos lutar de igual para igual com o Barça, seria idiota da minha parte achar que sim. Por muito que se apostasse nos maiores talentos da casa, faltaria sempre a capacidade financeira para os complementar com os Dani Alves’s, Rakitic’s, Neymar's e Suarez's. A questão aqui é que a única forma de, pelo menos parcialmente, pelo menos nalgumas posições, nos equipararmos à qualidade dessas equipas é apostando nos jogadores que hoje custam pouco mais que zero e são nossos até decidirmos que sejam nossos e que amanhã teriam um valor de mercado insuportável se tivéssemos que os ir buscar fora de portas. Depois há outro impossível, claro: poderíamos segurar esses talentos anos suficientes para ganhar quatro títulos europeus? Não, num mercado periférico seria impossível. Mas não deve nem pode ser impossível segurar uma geração os anos suficientes para que se faça uma gracinha uma vez, pelo menos. Não digo, duas, três ou quatro. Digo uma.

         

A juntar a isso, que já não é pouco, há um detalhe fundamental: a identidade, a mística, a alma. É humano e não há volta a dar, só um jogador que ama um clube desde a infância poderá senti-lo ao ponto de colocar nalgumas ocasiões os objectivos e projectos desportivos do clube acima do seu estatuto de "profissional", termo que hoje, na minha opinião, tantas vezes utilizamos para encobrir o que não passa de meras lacunas morais. Da formação pode sempre sair um Paulo Sousa ou Manuel Fernandes, os tais “profissionais”, mas só da formação poderá sair um Rui Costa ou Bernardo, jogadores a quem os olhos brilhavam só de falarem no Benfica, porque a isso estavam habituados desde crianças, porque iam para a cama sonhando que o terceiro anel os idolatrava. Só a formação nos pode oferecer talentos desta qualidade, virtualmente a custo zero, sem que acabem por fazer os possíveis para deixar o clube à primeira proposta que tenham de um clube mais poderoso. O David Luiz ou o Enzo, por exemplo, gostavam muito do Benfica, até ao dia em que se lembraram que eram “profissionais” e não olharam a meios para nos deixar. Não há projectos desportivos a médio prazo que resistam com este tipo de mentalidade.

         

O Futebol é um negócio, mas não é só um negócio, urge compreender-se isto de uma vez por todas. Ou melhor, poderá ser um negócio tanto mais rentável quanto mais tiver como objecto central a identidade, a mística, o emblema, o sentimento... Uma equipa plena de identidade benfiquista trará necessariamente para o clube um capital desportivo-financeiro superior àquele gerado por uma equipa de meros profissionais, sem a devida ligação às bancadas. A noção de identidade deve andar de mão dada com a noção de profissionalismo. Não devem substituir-se, devem complementar-se. A equipa e a bancada não podem viver em mundos separados. Só assim um clube sem os meios dos tubarões europeus poderá fazer-lhe frente de alguma maneira.

         

E aqui regresso ao início do texto. Enquanto este Benfica não se realizar, o seu potencial continuará inexplorado. É um clube demasiado grande, que gera demasiado sentimento, para que um projecto deste tipo possa ficar guardado numa gaveta, sob o pretexto de que competir internamente nos sacia e a Liga dos Campeões serve apenas para participar ou, no máximo dos máximos, ser eliminado nos Oitavos ou Quartos-de-Final, não estando nem aí para isso, pois os maiores da nossa aldeia contiuamos a ser nós. Não foi com esse tipo de pensamento, pequeno e amedrontado, que nos tornamos outrora num colosso europeu. Ganhar internamente não é um sonho, é um objectivo claro, quase uma obrigação. Ganhar, ou perto disso, externamente, isso sim, é um sonho. E para os sonhos não se deve procurar desculpas para não os concretizar, deve encontrar-se o caminho para lhes dar vida. E depois por lá ficar, não apenas passar por lá. Devemos criar condições para que se torne um hábito e o clube já só consiga, para estar bem consigo mesmo, viver nesse patamar, com gerações de talentos a sucederem-se umas às outras, continuando a obeceder às leis do mercado, mas sobrevivendo às mesmas, renascendo constantemente sob a mesma forma, a única forma que sempre caracterizou as maiores equipas da história do Benfica.

 

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